Todos Nós Assediados pelo Nascimento, Envelhecimento e Morte – Ayya Khema – Parte VI

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Texto retirado de Acesso ao Insight.

III. Para Controlar a própria Mente

Nosso velho amigo dukkha surge na mente como insatisfação causada por todos os tipos de estímulos. Pode ser disparado pelo desconforto corporal, mas mais freqüentemente é causado pelas próprias aberrações e convulsões da mente. A mente cria dukkha e é por isso que realmente precisamos vigiar e cuidar das nossas mentes.

Comentário: Em retomada a conceitos com os quais não trabalho há algum tempo, a ideia aqui é a de que a mente é quem cria o sofrimento, por conta de seus próprios defeitos e impurezas

A nossa própria mente pode fazer com que sejamos felizes, a nossa própria mente pode fazer com que sejamos infelizes. Não existe nenhuma pessoa ou coisa em todo o mundo que possa fazer isso por nós. Todas as ocorrências funcionam para nós como estímulos que constantemente nos pegam de surpresa. Por conseguinte, precisamos desenvolver uma atenção intensa em relação aos nossos momentos mentais.

Comentário: O conceito apresentado nesse parágrafo parece ser bastante importante para a lógica budista. A felicidade ou a infelicidade são uma responsabilidade individual de cada pessoa. A única causa concreta da felicidade ou da infelicidade de cada indivíduo é o próprio indivíduo.

Temos uma boa oportunidade de fazer isso na meditação. Pode haver duas orientações na meditação, tranqüilidade, (samatha), e insight, (vipassana). Se pudermos alcançar um certo nível de tranqüilidade é uma indicação de que a concentração está melhorando. Mas a não ser que essa habilidade valiosa seja empregada para o insight, será uma perda de tempo. Se a mente se tranqüiliza, freqüentemente surge a felicidade, mas precisamos observar o quão passageira e impermanente é essa felicidade, e como até mesmo o êxtase é em essência apenas uma condição que pode ser perdida com facilidade. Apenas o insight é irreversível. Quanto mais firme a tranqüilidade estiver estabelecida, melhor será a resistência às perturbações. No início, qualquer ruído, desconforto ou pensamento irá interrompê-la. Especialmente se a mente não esteve num estado de calma durante o dia.

Comentário: Não saberia explicar com exatidão essa diferença entre insight, felicidade da mente tranquila e extase sugerida pela autora.

A impermanência, (anicca), precisa ser vista com clareza em tudo aquilo que acontece, quer seja na meditação ou fora dela. O fato da constante mudança deve e precisa ser usado para a obtenção do insight da realidade. A atenção plena é o núcleo da meditação Budista e o insight é o seu objetivo. Nós despendemos nosso tempo de formas variadas e uma parte dele em meditação, mas todo o nosso tempo pode ser empregado para obter algum insight das nossas próprias mentes. É ali que todo o mundo está acontecendo para nós. Nada, exceto aquilo que estejamos pensando, existe para nós.

Comentário: Acho curioso como uma das proposições de nexo centrais do Budismo, a de que a percepção de que algo é impermanente conduziria inevitavelmente à compreensão da ausência de valor ou importância desse algo, está longe de ser evidente ou até mesmo lógica para o raciocínio ocidental.

Quanto mais observarmos a nossa mente e virmos o que ela faz por nós e para nós, mais estaremos inclinados a cuidar bem dela e tratá-la com respeito. Um dos maiores erros que podemos cometer é não nos darmos conta da importância da mente. A mente tem a capacidade de criar para nós o bem e também o mal, e apenas quando formos capazes de permanecer felizes e equânimes não importando que condições estejam surgindo, somente então poderemos dizer que temos um pouco de controle. Até que isso ocorra, estaremos descontrolados e os nossos pensamentos é que estarão no controle.

“Qualquer dano que um inimigo faça a um inimigo,

ou aquele que odeia ao odiado,

a mente direcionada de forma inábil deveras

poderá causar a uma pessoa o maior dano.

Aquilo que nem uma mãe, tampouco um pai,

nem qualquer outro ente querido pode fazer,

a mente direcionada de forma hábil deveras

poderá causar a uma pessoa o maior benefício.”

Dhp. 42, 43

Acima, as palavras do Buda mostram com clareza que não existe nada mais valioso do que uma mente controlada e direcionada de forma hábil. A domesticação da própria mente não ocorre apenas na meditação, esse é apenas um treinamento específico. Pode ser comparado com o aprender a jogar tênis. A pessoa treina com um instrutor, repetidamente, até que tenha desenvolvido equilíbrio e aptidão e possa na prática jogar numa competição de tênis. A nossa competição para domesticar a mente ocorre na vida diária, em todas as situações com as quais nos deparemos.

O maior apoio que podemos ter é a atenção plena, que significa estar totalmente presente em cada momento. Se a mente permanecer centrada ela não poderá criar histórias acerca da injustiça do mundo ou dos amigos, ou acerca dos próprios desejos, ou das próprias lamentações. Todas essas histórias fabricadas pela mente caberiam em muitos tomos, mas quando estamos plenamente atentos essas verbalizações se acabam. “Atenção Plena” é estar totalmente absorto no momento, não deixando espaço para nada mais. Estaremos preenchidos com os acontecimentos momentâneos, quer estejamos em pé ou sentados ou deitados, confortáveis ou desconfortáveis, sentindo prazer ou desprazer. O que quer que seja, estaremos com a consciência isenta de críticas, “apenas percebendo,” sem julgamento.

A plena consciência induz o julgamento. Compreendemos o propósito do nosso pensamento, palavra ou ação, se estamos empregando meios hábeis ou não, e se na verdade alcançamos o resultado necessário. É necessário ter uma certa distância de si mesmo para poder julgar com isenção. Se estivermos totalmente envolvidos é muito difícil ter uma perspectiva objetiva. A atenção plena combinada com a plena consciência proporcionam a necessária distância, objetividade e desapego.

Comentário: Há uma contradição estranha, nessa passagem. Afinal, deve-se estar com a consciência isenta de críticas, sem julgamento, ou, ou essa plena consciência induz o julgamento? Compreendo que a autora quer dizer que a plena consciência deve andar junto com a atenção plena, mas penso que deveria haver uma explicação mais detalhada do que exatamente se quer dizer.

Qualquer dukkha que tenhamos, pequeno, médio ou grande, contínuo ou intermitente, tudo isso é criado pela própria mente. Nós somos os criadores de tudo aquilo que nos ocorre, formando nosso próprio destino, ninguém mais está envolvido. Cada um está desempenhando o seu próprio papel, é um acaso que estejamos próximos de algumas pessoas e distantes em outras ocasiões. Mas tudo aquilo que fizermos, tudo é feito pelos nossos momentos mentais.

Quanto mais observarmos os nossos pensamentos durante a meditação, mais insight poderá surgir, se houver um entendimento objetivo daquilo que estiver ocorrendo. Quando observamos os momentos mentais surgirem, permanecerem e cessarem, o distanciamento do nosso processo pensante irá ocorrer, o que resulta em desapego. Os pensamentos surgem e desaparecem a todo momento, como a respiração. Se nos agarrarmos a eles e tentarmos possuí-los, aí é quando todos os problemas têm início. Queremos possuí-los e realmente fazer algo com eles, especialmente se forem negativos, o que com certeza irá criar dukkha.

Comentário: Uma vez mais: porque o distanciamento necessariamente gera desapego?

Vale a pena lembrar a fórmula do Buda para o esforço correto: “Não permitir que um pensamento prejudicial/inábil, que ainda não tenha surgido, surja. Não manter um pensamento prejudicial/inábil que já tenha surgido. Estimular um pensamento benéfico/hábil que ainda não tenha surgido. Manter um pensamento benéfico/hábil que já tenha surgido.”

Quanto mais rápido pudermos nos tornar proficientes no esforço correto, melhor. Isso faz parte do treinamento ao qual nos submetemos durante a meditação. Quando tivermos aprendido a abandonar com rapidez qualquer coisa que esteja surgindo na meditação, poderemos fazer o mesmo com os pensamentos prejudiciais na vida diária. Durante a meditação estamos vigilantes em relação aos pensamentos prejudiciais, podemos usar essa mesma habilidade para proteger as nossas mentes em todas as situações. Quanto mais aprendermos a fechar a porta da mente a tudo aquilo de negativo que perturba a nossa paz interior, mais fácil será a nossa vida. Paz mental não é indiferença. Uma mente em paz é uma mente compassiva. Reconhecer e abandonar não é supressão.

Dukkha é criado por nós mesmos e perpetuado por nós mesmos. Se formos sinceros no nosso desejo de eliminá-lo, temos de observar a mente com cuidado, para obter o insight daquilo que realmente está ocorrendo no nosso íntimo. O que nos está estimulando? Existem inúmeros estímulos, mas existem apenas duas reações. Uma é a equanimidade e a outra é o desejo.

Comentário: A ideia de equanimidade representa o tratamento igual dado tanto àquilo que é visto como bom, como aquilo que é visto como ruim. Tratamento igual no sentido de não reagir a nenhuma das duas espécies de sensações. Acredito que os textos budistas deveriam insistir e explicar mais a ideia de equanimidade, que é central para compreender boa parte da proposta meditativa.

Podemos aprender com tudo. Hoje muitos anagarikas tiveram que esperar muito tempo na fila do caixa no banco, o que foi um exercício de paciência. Se o exercício foi bem sucedido ou não, não importa tanto quanto o fato de que foi uma oportunidade para o aprendizado. Tudo aquilo que fazemos é um exercício, esse é o nosso propósito como seres humanos. É a única razão de estarmos aqui, isto é, usar o tempo neste nosso pequeno planeta para aprender e crescer. Pode ser chamado de sala de aula para a educação de adultos. Qualquer outra coisa que pensemos como sendo o propósito da vida é um entendimento incorreto.

Aqui somos apenas convidados, desempenhando um papel limitado aos convidados. Se usarmos o nosso tempo para obter o insight de nós mesmos, utilizando os nossos gostos e desgostos, nossas resistências, nossas rejeições, nossas preocupações, nossos medos, então estaremos passando por esta vida com o melhor benefício. É uma grande habilidade viver dessa forma. O Buda chamava isso de “urgência”, (samvega), a percepção de que temos de trabalhar com nós mesmos agora sem deixar isso para um futuro indeterminado, quando poderemos ter mais tempo disponível. Tudo pode ser uma oportunidade de aprendizado e agora é o momento correto.

Comentário: Faça agora, e não depois. Bom, essa é, afinal, uma ideia compartilhada com o Ocidente.

Ao encontrarmos o nosso velho amigo dukkha, perguntaremos: “De onde você vem?” Ao obtermos uma resposta deveríamos perguntar outra vez, indo cada vez mais fundo no tema. Existe apenas uma resposta verdadeira, mas nós não a obteremos de imediato. Precisamos vasculhar várias respostas até que cheguemos ao fundo do poço, que é o “ego.” Quando tivermos chegado nele, saberemos que chegamos ao fim das perguntas e ao início do insight. Poderemos então tentar investigar como o ego produziu novamente dukkha. Como isso ocorreu, qual foi a reação? Ao vermos a causa, é possível que abandonemos aquele entendimento incorreto em particular. Tendo visto causa e efeito por nós mesmos, nunca mais esqueceremos isso. De gota em gota se enche um balde, pouco a pouco nos purificamos. Cada momento vale a pena.

Comentário: A purificação seria a purificação da mente, a liberação dos estados mentais que conduzem ao sofrimento.

Quanto mais experimentarmos cada momento como digno do nosso esforço, tempo e interesse, mais energia haverá. Não existirão momentos inúteis, cada momento será importante, se for usado com habilidade. Uma energia incrível surgirá a partir disso, porque tudo se soma numa vida que é vivida da melhor maneira possível.